Ser casada
Ana sabia que era uma santa, mas gostosíssima, gostosíssima, mas uma santa. E não tinha modéstia, porque modéstia é característica de fracos. Tampouco tinha orgulho, ojerizava prepotência. Apenas tinha ciência do que era e de tudo que tinha a oportunidade de conquistar e evitar com isso. Sabia o que era. E isso bastava. E quando chegou em casa com aquela fantasia, que como tantas outras comprara em sex shop, com suas pernas torneadas, curvas que insinuavam o ópio que ludibriariam o homem qualquer a quem ela resolvesse seduzir, olhos pintados para o mistério instigante da luxúria, salto imponente que deixaria ofuscada a atenção voltada à mais sofisticadas das putas, cabelos longos-belos-soltos-pela-cintura, percebeu o marido imóvel que a sua mulher chegara. Qual não foi sua surpresa. What folk is that? Certamente pensou o marido de Ana quando viu a esposa chegar perceptivelmente sedutora como nunca havia ficado para ele, ainda que já lhe tenha usado vários tipos de fantasias que saciavam-lhe a mais podres das luxúrias. Ana abrira a porta da sala, olhou segura mas sem mostrar sentimentos, como se a alma tivesse sido ocultada naquele momento. O que se impunha era a instigante sensualidade exaltada pela roupa preta-minúscula –preta, o salto, o cabelo que deixava pulsando as veias viris do pecado, tudo era notável exceto a alma, cujos óculos escuros ocultava. Seus olhos o marido não olhou, nem viu. Puto, mas estático ficou o marido: que palhaçada era aquela? Mal Ana retirou-se de sua presença, o marido lembrou do que houvera há dois dias.
Ana descobrira a traição do marido.
Um frio percorreu a espinha do homem que sentia-se pequeno, pequeno e fraco, pequeno, fraco e impotente diante de tudo o que podia resultar daqueles segundos que se passaram ao ver a esposa chegando. De onde vinha? O que fizera? Com quem estava? E o pior: o que aconteceria dali em diante? Tudo poderia acontecer. Tudo. Pensou na grande possibilidade de se ver longe daquela mulher, quando ela pedisse divórcio. E amava-a sim, que amor é uma coisa, sexo é outra. Sim, amava-a. Sentiu sua imponência escorrer-lhe pelos dedos, viu ele, que se sentira outrora o dono do mundo, senhor todo poderoso ao comer de quatro uma puta, mulata, gostosa, que chupava-lhe como uma escrava que servia o seu senhor, engrandecendo-lhe ainda mais sua potência, subjugar uma pessoa, ainda que puta, era poder. The world is mine. O gozo, também por vir escorrer pelas nádegas da puta o líquido fálico de sua superioridade, tornava-se ínfimo diante daquilo que ocorria e, pior: do que poderia acontecer. Amava Ana. Mas a repulsa crescia ainda mais ao sentir o estômago querer expulsar o que havia ali tal era a sua aversão de pensar em ver Ana fora de sua vida. Mas tal nojo aumentava quando ele lembrava de como Ana estava sensual: Filha da puta! Ela nunca esteve tão gostosa. Como qualquer homem que se preze, o marido parece só ter tirado a venda dos olhos sobre quão sensual era sua esposa diante da possibilidade de vê-la não mais sua. Perder o amor de Ana seria o fim da vida dele; mas não poder mais trepar com aquela gostosa-mais-que-puta que se revelara a três minutos para ele era hediondo, insuportável. Como se ainda pudesse, petrificou-se-lhe ainda mais a alma quando imaginou outro macho com sua esposa. Não! Não podia perder Ana. Não tanto pelo amor da esposa que lhe era a essência da vida, mas principalmente porque descobrira quão linda era ela. Nesse monólogo intelectual, alma, medula do marido, Ana permanecia no quarto, porque ela abriu a porta de entrada e foi fria e lentamente para o quarto. Sem fazer barulho. Sentia-se plenamente satisfeita com o que estava fazendo. Ela no quarto olhou-se no espelho: Gostou do que viu. E ele estava na sala dantina, dantina... Pois foi da sala que viu a mulher chegar... e passar... sem falar nada, indo para o quarto. Não, Ana não sentiu culpa. Ana não só não sentiu culpa como teve paz consigo. Viu em seus olhos o pecado nas cores mas a pureza no brilho. Alegava que fazia tudo aquilo por causa do marido, que como todo homem, era burro e fraco. Respirou fundo diante do espelho, fitou-se mais uma vez, olhou bem dentro dos seus olhos, gostou do que viu, e mais uma vez não sentiu culpa pelo que fizera. Ana amava o marido e, não se interessava por nenhum homem, então concluiu que gostou do que acabara de fazer. Ela gostaria de que nada disso tivesse realmente acontecido, mas aconteceu, e sentiu-se obrigada a fazer isso. E fez. Sim, essas coisas acontecem... E Deus ri de tudo isso. E deu-nos, a nós meros humanos o amor, para botar ordem no caos. Calarem-se as bocas, resignarem-se os corações, e mostrar para os mortais que são mortais e dependentes. Aiai , caralho. Ana afastou-se do espelho, tirou a roupa micro de dominadora: primeiro a sandália de salto que trançava até o joelho suas fitas pretas, depois o shortinho, sim, ainda não era a calcinha, era só o shortinho, e por fim a calcinha – que já adianto que não era um fio, era calcinha! Desamarrou as fitas do bustiê, as luvas que iam ate os cotovelos, mas cujos dedos ficavam à mostra evidenciando as unhas – outrora rosinha claro – vermelhas fogo. Encontrou-se nua. Foi para o banheiro da suíte que estava trancada. Olhou-se mais uma vez no espelho, com uma sensação de que fez exatamente o que deveria fazer. A prioridade era ela com ela mesma, depois vinha o marido, a quem amava. O marido dissolvia-se na sala, implorando aos céus perdão pelo que fizera dizendo a si mesmo que a perdoaria por tudo que ele a levara a fazer – pois a essa altura já tinha lhe passado pela cabeça a mulher trepando para se vingar dele, e com mais de um homem – E pior: homem sarado e não com uma pança de cerveja como a dele. Ele chorava, desconsolado, só imaginando a hora em que ela pediria divórcio, pensando machista que era, diante disso Ana não mais seria dele: seria de outro. Mas, sempre o “mas”... Ana amava-o. Ana respeitava-se, Ana era sábia e ciente das coisas do mundo, pois já aprendera bastante da vida. Então tudo acabaria bem, pensava ela. Ele já em palpitações desfalecido, com seu último grau de lucidez prometera, jurando pela vida da mãe, que jamais faria aquilo de novo. E ele estava sendo sincero, pois Ana era gozo, segurança e retidão: E isso promove vida. Mal sabia ele que a esposa havia ido, vestida daquele jeito – porque precisava se sentir tão bonita quanto a puta que deu pro seu marido –, à igreja e havia ficado dentro do carro, no escuro do estacionamento durante duras horas, rezando sozinha para que Deus lhe salvasse o casamento. E Ana sabia que era uma santa, mas gostosíssima, gostosíssima, mas uma santa.