domingo, 15 de setembro de 2013

Ser casada

Ser casada
Ana sabia que era uma santa, mas gostosíssima, gostosíssima, mas uma santa. E não tinha modéstia, porque modéstia é característica de fracos. Tampouco tinha orgulho, ojerizava prepotência. Apenas tinha ciência do que era e de tudo que tinha a oportunidade de conquistar e evitar com isso. Sabia o que era. E isso bastava. E quando chegou em casa com aquela fantasia, que como tantas outras comprara em sex shop, com suas pernas torneadas, curvas que insinuavam o ópio que ludibriariam o homem qualquer a quem ela resolvesse seduzir, olhos pintados para o mistério instigante da luxúria, salto imponente que deixaria ofuscada a atenção voltada à mais sofisticadas das putas, cabelos longos-belos-soltos-pela-cintura, percebeu o marido imóvel que a sua mulher chegara. Qual não foi sua surpresa. What folk is that? Certamente pensou o marido de Ana quando viu a esposa chegar perceptivelmente sedutora como nunca havia ficado para ele, ainda que já lhe tenha usado vários tipos de fantasias que saciavam-lhe a mais podres das luxúrias. Ana abrira a porta da sala, olhou segura mas sem mostrar sentimentos, como se a alma tivesse sido ocultada naquele momento. O que se impunha era a instigante sensualidade exaltada pela roupa preta-minúscula –preta, o salto, o cabelo que deixava pulsando as veias viris do pecado, tudo era notável exceto a alma, cujos óculos escuros ocultava. Seus olhos o marido não olhou, nem viu. Puto, mas estático ficou o marido: que palhaçada era aquela? Mal Ana retirou-se de sua presença, o marido lembrou do que houvera há dois dias.
Ana descobrira a traição do marido.
Um frio percorreu a espinha do homem que sentia-se pequeno, pequeno e fraco, pequeno, fraco e impotente diante de tudo o que podia resultar daqueles segundos que se passaram ao ver a esposa chegando. De onde vinha? O que fizera? Com quem estava? E o pior: o que aconteceria dali em diante? Tudo poderia acontecer. Tudo. Pensou na grande possibilidade de se ver longe daquela mulher, quando ela pedisse divórcio. E amava-a sim, que amor é uma coisa, sexo é outra. Sim, amava-a. Sentiu sua imponência escorrer-lhe pelos dedos, viu ele, que se sentira outrora o dono do mundo, senhor todo poderoso ao comer de quatro uma puta, mulata, gostosa, que chupava-lhe como uma escrava que servia o seu senhor, engrandecendo-lhe ainda mais sua potência, subjugar uma pessoa, ainda que puta, era poder. The world is mine. O gozo, também por vir escorrer  pelas nádegas da puta o líquido fálico de sua superioridade, tornava-se ínfimo diante daquilo que ocorria e, pior: do que poderia acontecer. Amava Ana. Mas a repulsa crescia ainda mais ao sentir o estômago querer expulsar o que havia ali tal era a sua aversão de pensar em ver Ana fora de sua vida. Mas tal nojo aumentava quando ele lembrava de como Ana estava sensual: Filha da puta! Ela nunca esteve tão gostosa. Como qualquer homem que se preze, o marido parece só ter tirado a venda dos olhos sobre quão sensual era sua esposa diante da possibilidade de vê-la não mais sua. Perder o amor de Ana seria o fim da vida dele; mas não poder mais trepar com aquela gostosa-mais-que-puta que se revelara a três minutos para ele era hediondo, insuportável. Como se ainda pudesse, petrificou-se-lhe ainda mais a alma quando imaginou outro macho com sua esposa. Não! Não podia perder Ana. Não tanto pelo amor da esposa que lhe era a essência da vida, mas principalmente porque descobrira quão linda era ela. Nesse monólogo intelectual, alma, medula do marido, Ana permanecia no quarto, porque ela abriu a porta de entrada e foi fria e lentamente para o quarto. Sem fazer barulho. Sentia-se plenamente satisfeita com o que estava fazendo. Ela no quarto olhou-se no espelho: Gostou do que viu. E ele estava na sala dantina, dantina... Pois foi da sala que viu a mulher chegar... e passar... sem falar nada, indo para o quarto. Não, Ana não sentiu culpa. Ana não só não sentiu culpa como teve paz consigo. Viu em seus olhos o pecado nas cores mas a pureza no brilho. Alegava que fazia tudo aquilo por causa do marido, que como todo homem, era burro e fraco. Respirou fundo diante do espelho, fitou-se mais uma vez, olhou bem dentro dos seus olhos, gostou do que viu, e mais uma vez não sentiu culpa pelo que fizera. Ana amava o marido e, não se interessava por nenhum homem, então concluiu que gostou do que acabara de fazer. Ela gostaria de que nada disso tivesse realmente acontecido, mas aconteceu, e sentiu-se obrigada a fazer isso. E fez. Sim, essas coisas acontecem... E Deus ri de tudo isso. E deu-nos, a nós meros humanos o amor, para botar ordem no caos. Calarem-se as bocas, resignarem-se os corações, e mostrar para os mortais que são mortais e dependentes. Aiai , caralho. Ana afastou-se do espelho, tirou a roupa micro de dominadora: primeiro a sandália de salto que trançava até o joelho suas fitas pretas, depois o shortinho, sim, ainda não era a calcinha, era só o shortinho, e por fim a calcinha – que já adianto que não era um fio, era calcinha! Desamarrou as fitas do bustiê, as luvas que iam ate os cotovelos, mas cujos dedos ficavam à mostra evidenciando as unhas – outrora rosinha claro – vermelhas fogo. Encontrou-se nua. Foi para o banheiro da suíte que estava trancada. Olhou-se mais uma vez no espelho, com uma sensação de que fez exatamente o que deveria fazer. A prioridade era ela com ela mesma, depois vinha o marido, a quem amava. O marido dissolvia-se na sala, implorando aos céus perdão pelo que fizera dizendo a si mesmo que a perdoaria por tudo que ele a levara a fazer – pois a essa altura já tinha lhe passado pela cabeça a mulher trepando para se vingar dele, e com mais de um homem – E pior: homem sarado e não com uma pança de cerveja como a dele. Ele chorava, desconsolado, só imaginando a hora em que ela pediria divórcio, pensando machista que era, diante disso Ana não mais seria dele: seria de outro. Mas, sempre o “mas”... Ana amava-o. Ana  respeitava-se,  Ana era sábia e ciente das coisas do mundo, pois já aprendera bastante da vida. Então tudo acabaria bem, pensava ela. Ele já em palpitações desfalecido, com seu último grau de lucidez prometera, jurando pela vida da mãe, que jamais faria aquilo de novo. E ele estava sendo sincero, pois Ana era gozo, segurança e retidão: E isso promove vida. Mal sabia ele que a esposa havia ido, vestida daquele jeito – porque precisava se sentir tão bonita quanto a puta que deu pro seu marido –, à igreja e havia ficado dentro do carro, no escuro do estacionamento durante duras horas, rezando sozinha para que Deus lhe salvasse o casamento. E Ana sabia que era uma santa, mas gostosíssima, gostosíssima, mas uma santa.

conto vermelho (setembro 2013)

Conto Vermelho
Maria espremia os olhos, virando a cara pra cima mais uma vez. A dor que sentia era insuportável, mas ela suportava bem. Brasileiro não desiste nunca, ria de si em pensamento sem se importar das gotículas de seu sangue que vertiam. Dor é bom quando a causa era justa. E a causa era justa! Todo mês trezentinhos, de boa, é só sacar! Vale a homenagem. Hahaha ria, ria Maria distraindo-se da dor, distraindo-se da dor, distraindo-se da dor, traindo-se. Com a mão esquerda segurava o cotovelo direito, o braço direito reto virado pra baixo, com orvalhos cintilando rubro, junto do suor de seu ombro. Rio de Janeiro é quente!
- E agora? Já ta acabando, leke?
- Calma, nem! Respondia ele, com ar de quem orgulhosamente faz bem seu trabalho. Trabalho digno ainda que doa merece louvor.
Já dessa vez respirava fundo Maria, espremendo os olhos a ponto de sair lágrimas. Lágrima tem sal, percebia o gosto de sua lágrima. Ria no pensamento “é salgadinha”. O braço dormente de dor. “Salgadinha”! Lembrou-se do Zé. O Zé dissera que ela era salgadinha, lá no quartinho de trás da mãe dele. Se esse quartinho falasse!, ria consigo Maria.
- Caramba, cumpadchi! Não termina não?
- Tá quase, filé! Tá quase!
...
- Tá prontinho, aê! Gostou?
- I, aê, ficou maneiro! Bom, muito dolorido, mas muito bom! Vermelhinho como eu pedi. Vai desinchar depois?
- Com certeza! Não esquenta que o serviço eu garanto.

A vida era boa, as crianças não choravam mais perto de Maria. Creche-escola integral. Agora sim!

Maria tinha três. Teve um com 13. Largou de ir à escola. Tempos difíceis aqueles. Teve o segundo com 17 e o terceiro com 18. Xingou tanto na época ela. Mas logo gostou. Muito. Agora, tinha orgulho do que fizera.  Meus filhos, renda, não trabalho, logo... Zé!
Estendendo a calcinha num lugar de destaque no varal da laje, a calcinha era nova, apreciava a praia de Copacabana. Que vista! Vida boa! Nem se lembrava mais do que ocupara seus pensamentos há pouco: a notícia de que seu irmão de pai e mãe contraíra HIV, porque a camisinha do governo furou. Contou ele a Maria que o “soldado” foi muito forte, e daí rasgou... “Nossa, o funk bombou ontem”, secando o cabelo com a toalha, porque depois que entregara as crianças na porta da escola tomou banho pra tirar o Zé de si. “kkkk troço fedido”.
Em casa não via jornal. É chato. Novela sim, mas as das 7 e das 9 só.
...
Um mês e meio depois, nada de menstruação. Foda! As crianças já estavam grandinhas e o máximo é só os trezentinho... Zé ia brigar.
Dois meses e nada!
- Foi sancionada pela presidenta a profilaxia, mas em caso de estupro. Viu no intervalo da novela a chamada do jornal que viria a seguir. Viu o jornal.
...
Deixando as crianças na porta da escola, postinho de saúde!
...
_ ... E foi isso!...
- A senhora por acaso fez boletim de ocorrência?
- Por quê? Precisa?
- Não, não precisa.
- Não fiz.
- OK. É só me seguir até a outra sala.
...
Horas depois, desobedecendo as ordens de repouso subiu à laje. Olhou pro sol mas de olhos fechados. Respirou fundo. Dia lindo, lindíssimo. Viu uma pipa voando quando se voltou pro mar, era do flamengo. Agradeceu ao... . Simplesmente agradeceu a livrada do problema. Zé nem saberia. Abriu os braços na laje, em pé contemplou o horizonte feliz, feliz. Agradeceu o livramento. Forçou os músculos, eliminando junto dos gases que surgiram uma golfada rubra, que desceu quente quente. Nem olhou. Pronto, fim desse probleminha. Fez forças novamente como a evacuar, dessa vez a golfada foi maior. Sai, estorvo, sai! Orgulhosamente volveu lenta para o braço esquerdo, suspirou de consolo quando viu a tatuagem da estrelinha com umas letras brancas ao centro, falando para a tatuagem “obrigada por entender o povo e fazer leis que ajuda a gente” Só então viu entre as pernas o seu sangue... seu sangue... Subitamente faltaram as forças, as imagens viraram penumbras brancas. Desmaiou sem nem se quer antes pensar nas crianças. Estava quase na hora da saída das crianças da escola.
Trêmulo com as três crianças, Zé segurava o atestado expedido pelo médico: “causa de muerte aborto espontáneo”. É porque o médico ainda tinha dificuldades com o português.

sábado, 28 de abril de 2012

Vestígio de solidão

Vestígio de solidão

Por não ter você
a Poesia nasce
Ah... quem me dera
trocar estas palavras
por um sorriso sequer!
Essa poesia não é bela
Seja você presente e não ela.

Verbo de Ligação em primeira pessoa

Verbo de Ligação em primeira pessoa

Pareço alguém?
        Sou ninguém!
                  Estou além?
                        Permaneço...
                                    andando...
                                                      só...
                                    procurando                                                    mim.
                                   um     
                          verbo
                    que
             me
       ligue
a

To be continued

To be continued

Não  tenho você
por isso amo-te tanto,
mas estando você perto
seria tudo menos amor

amor é a falta é a busca
amor é inatingível alvo

Estando o amado perto
então não é mais amor
é apaziguamento é acomodação.
A minha busca já é
o que eu queria encontrar.

Para que colocar um ponto final
numa vida que começa, busca e descobre
cíclica e reciprocamente
perdida na palavra AMOR?

Não! Minha história não terá
“ e viveram felizes para sempre”
Ela estará por fazer
até o último dia de existência.

Sexo ao sol

Sexo ao sol
Deitada na esteira na praia
Um suave sol de tarde
aquece a pele macia
a paz, o som do mar,
as ondas, a maresia
Clitóris ao sol, umbigo aquecido
A brisa que acaricia
E o mais é esquecido
Nenhum ser é presente
Vive a tarde envolvente
E o mar, e as ondas,
e a brisa... tocam a alma
E tudo basta.
De repente ao longe
um vulto!
Correria para se vestir
ou agir naturalmente?
Ah... deixa que ele venha,
que veja, e que vá com a impressão que quiser.
E aproximando era um deus grego
E Afrodite se torna meu nome.
E eis que não passa por mim,
mas se aproxima e se agacha.
Olha em meus olhos, me rodeia
E eu tonta e embriagada não penso em mais nada.
Ele se aproxima e inspira meu perfume
e eu fecho os olhos e sinto o primeiro toque
Deita sobre mim e
com seus lábios devora minha boca
macho sedento encontra fêmea
O peso do seu corpo animal
E me deito, e me cobre... vejo o céu!
Ele em cima num azul sem fim
é o que meus olhos vêem
E o meu corpo pulsa, a pele sua,
os braços envolvem,
E o céu... e o paraíso se fundem...
Agora com joelhos e mãos na areia
com o mar já agitado de cenário
a  felicidade do momento está em mim.
Pele quente, cheiro animal
E já bem forte,
 barriga na areia, rosto em chão
sinto o golpe forte
penso  talvez: fatal
Minha pele na areia machuca
(de-lei-to-sa-men-te!):
Masoquismo é prazer!
E a areia, e o sol,
e o mar, e a brisa, e a maresia, giram,
loucamente, e ofegante...
jorram e pulsam
até que o gozo criador
paira sobre a face das águas.
E natural, pleno, leve
vai ao mar, afunda
e some no oceano de poesia.
Quanto a mim,
não quero saber o que nem o que é!
Deu-me o que eu queria!
E olhando dois sóis em céu e mar
dourada e muito conformada
despeço-me do encalorado pôr-do-sol.

porto a deriva

porto a deriva
como consegue guiar seu caminho
no mar sempre eterno que a vida impõe ?
como que pode, barquinho sem vela,
andar teimosinho
sem nenhum carinho?
diga-me albatroz
que de cima tu vês
 eu sou o seu porto ou quase já morro
por porto não ser ?
barquinho malvado
ah, tenha cuidado pois vai perecer.
 seu porto te espera anseia aguarda
barquinho vem logo,
o porto flutua, incerto, à deriva
 assumo barquinho: mais forte é você.