domingo, 15 de setembro de 2013

conto vermelho (setembro 2013)

Conto Vermelho
Maria espremia os olhos, virando a cara pra cima mais uma vez. A dor que sentia era insuportável, mas ela suportava bem. Brasileiro não desiste nunca, ria de si em pensamento sem se importar das gotículas de seu sangue que vertiam. Dor é bom quando a causa era justa. E a causa era justa! Todo mês trezentinhos, de boa, é só sacar! Vale a homenagem. Hahaha ria, ria Maria distraindo-se da dor, distraindo-se da dor, distraindo-se da dor, traindo-se. Com a mão esquerda segurava o cotovelo direito, o braço direito reto virado pra baixo, com orvalhos cintilando rubro, junto do suor de seu ombro. Rio de Janeiro é quente!
- E agora? Já ta acabando, leke?
- Calma, nem! Respondia ele, com ar de quem orgulhosamente faz bem seu trabalho. Trabalho digno ainda que doa merece louvor.
Já dessa vez respirava fundo Maria, espremendo os olhos a ponto de sair lágrimas. Lágrima tem sal, percebia o gosto de sua lágrima. Ria no pensamento “é salgadinha”. O braço dormente de dor. “Salgadinha”! Lembrou-se do Zé. O Zé dissera que ela era salgadinha, lá no quartinho de trás da mãe dele. Se esse quartinho falasse!, ria consigo Maria.
- Caramba, cumpadchi! Não termina não?
- Tá quase, filé! Tá quase!
...
- Tá prontinho, aê! Gostou?
- I, aê, ficou maneiro! Bom, muito dolorido, mas muito bom! Vermelhinho como eu pedi. Vai desinchar depois?
- Com certeza! Não esquenta que o serviço eu garanto.

A vida era boa, as crianças não choravam mais perto de Maria. Creche-escola integral. Agora sim!

Maria tinha três. Teve um com 13. Largou de ir à escola. Tempos difíceis aqueles. Teve o segundo com 17 e o terceiro com 18. Xingou tanto na época ela. Mas logo gostou. Muito. Agora, tinha orgulho do que fizera.  Meus filhos, renda, não trabalho, logo... Zé!
Estendendo a calcinha num lugar de destaque no varal da laje, a calcinha era nova, apreciava a praia de Copacabana. Que vista! Vida boa! Nem se lembrava mais do que ocupara seus pensamentos há pouco: a notícia de que seu irmão de pai e mãe contraíra HIV, porque a camisinha do governo furou. Contou ele a Maria que o “soldado” foi muito forte, e daí rasgou... “Nossa, o funk bombou ontem”, secando o cabelo com a toalha, porque depois que entregara as crianças na porta da escola tomou banho pra tirar o Zé de si. “kkkk troço fedido”.
Em casa não via jornal. É chato. Novela sim, mas as das 7 e das 9 só.
...
Um mês e meio depois, nada de menstruação. Foda! As crianças já estavam grandinhas e o máximo é só os trezentinho... Zé ia brigar.
Dois meses e nada!
- Foi sancionada pela presidenta a profilaxia, mas em caso de estupro. Viu no intervalo da novela a chamada do jornal que viria a seguir. Viu o jornal.
...
Deixando as crianças na porta da escola, postinho de saúde!
...
_ ... E foi isso!...
- A senhora por acaso fez boletim de ocorrência?
- Por quê? Precisa?
- Não, não precisa.
- Não fiz.
- OK. É só me seguir até a outra sala.
...
Horas depois, desobedecendo as ordens de repouso subiu à laje. Olhou pro sol mas de olhos fechados. Respirou fundo. Dia lindo, lindíssimo. Viu uma pipa voando quando se voltou pro mar, era do flamengo. Agradeceu ao... . Simplesmente agradeceu a livrada do problema. Zé nem saberia. Abriu os braços na laje, em pé contemplou o horizonte feliz, feliz. Agradeceu o livramento. Forçou os músculos, eliminando junto dos gases que surgiram uma golfada rubra, que desceu quente quente. Nem olhou. Pronto, fim desse probleminha. Fez forças novamente como a evacuar, dessa vez a golfada foi maior. Sai, estorvo, sai! Orgulhosamente volveu lenta para o braço esquerdo, suspirou de consolo quando viu a tatuagem da estrelinha com umas letras brancas ao centro, falando para a tatuagem “obrigada por entender o povo e fazer leis que ajuda a gente” Só então viu entre as pernas o seu sangue... seu sangue... Subitamente faltaram as forças, as imagens viraram penumbras brancas. Desmaiou sem nem se quer antes pensar nas crianças. Estava quase na hora da saída das crianças da escola.
Trêmulo com as três crianças, Zé segurava o atestado expedido pelo médico: “causa de muerte aborto espontáneo”. É porque o médico ainda tinha dificuldades com o português.

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